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Uma análise sobre a individualização do sofrimento e as condições concretas da saúde mental
O Setembro Amarelo acabou, e agora?
- Por Lorena Carrillo Colaço – Psicóloga – CRP 08/20492
Todos os anos, o mês de Setembro é marcado por uma campanha de prevenção do suicídio e onde se fala muito sobre os cuidados com saúde mental, principalmente nos casos mais extremos de sofrimento. Mas o mês acabou e as redes sociais, empresas e as ruas já começam a deixar para trás os laços amarelos, as mensagens de acolhimento e as campanhas de valorização da vida. Aos poucos, outros assuntos ocupam os espaços que, durante um mês, foram dedicados a este tema.
Eu vejo o Setembro Amarelo como uma campanha importante, não me entenda mal. Inclusive, a título de curiosidade: você sabe de onde ela veio? A campanha foi inspirada na história de um jovem estadunidense de 17 anos, chamado Mike Emme, que gostava de restaurar carros antigos e, após comprar um Ford Mustang 1968, o restaurou e o pintou de amarelo. Ele era um jovem querido na comunidade em que vivia nos EUA e cometeu suicídio em 1994. No dia do seu velório, familiares e amigos deixaram pequenos laços amarelos com a frase “Se precisar, peça ajuda” em homenagem ao jovem Mike: o que anos depois deu origem ao movimento com as fitas amarelas nas campanhas por todo o mundo. Novamente, reitero: é uma campanha importante. Meu objetivo aqui é o de trazer algumas contradições, dentre elas, a de que não basta incentivar as pessoas a falarem sobre seu sofrimento durante um mês inteiro, se não estamos dispostos a discutir a sociedade e as condições em que esse sofrimento é produzido. Falar de saúde mental também exige falar de trabalho, renda, moradia, violência(s), educação, acesso à saúde e das possibilidades concretas de construir uma vida minimamente digna. Como falar então sobre saúde mental?
Quem é, e onde se desenvolve, aquele que sofre?
Não pretendo diminuir a importância do Setembro Amarelo. Falar sobre saúde mental, romper silêncios, combater o tabu relacionado a temática do Suicídio e incentivar que as pessoas busquem por ajuda são, com certeza, iniciativas necessárias e fundamentais. Minha inquietação é a individualização do sofrimento humano, como se ele fosse descolado e separado das condições em que a vida acontece.
Durante o mês de Setembro, ouvimos frequentemente que precisamos cuidar de nós mesmos, respeitar nossos limites, procurar ajuda, cultivar relações saudáveis e aprender a lidar com as nossas emoções. São orientações importantes, mas é necessário pensar em quantas pessoas dispõem, de fato, das condições necessárias para colocá-las em prática. Como falar em descanso para quem precisa trabalhar em jornadas exaustivas para garantir o sustento da família? Como falar em perspectivas de futuro para quem sofre com as mais variadas formas de violência e encontra dificuldades até mesmo para assegurar as necessidades mais imediatas de existência?
Essas perguntas, como psicóloga e professora universitária, que forma novos profissionais da área de saúde mental, me parecem fundamentais porque não somos indivíduos que existem independentemente do mundo em que vivemos. Nossa maneira de pensar, sentir, agir e compreender a realidade é construída e desenvolvida dentro desta própria realidade onde estamos e como a entendemos e nos apropriamos dela. Isso significa que reconhecer que o sofrimento psíquico, embora vivido de maneira singular por cada pessoa, não pode ser compreendido exclusivamente como uma questão individual.
E talvez seja importante dizer também de onde eu mesma parto para fazer essa reflexão, mesmo que de forma breve.
Falo a partir de um lugar que preciso reconhecer. Estudei a vida inteira em instituições públicas. Foi assim no ensino fundamental, no ensino médio, na faculdade, no mestrado e é assim, novamente, no doutorado (minhas experiências em instituições privadas foram a de realizar uma pós-graduação, finalizada em, 2019 e minha experiência atual, como professora e coordenadora de um curso de Psicologia).
Tive oportunidades pelas quais sou profundamente grata, mas que jamais atribuiria apenas ao meu esforço individual. Ao longo dessa trajetória, conheci e convivi e estudei com pessoas que não tiveram as mesmas condições que eu para continuar estudando, para fazer escolhas ou mesmo para imaginar determinados futuros e caminhos diferentes. Pude fazer minha graduação em Psicologia (de 2009 a 2013) sem me preocupar com o meu sustento, porque tinha uma família que podia arcar com meus gastos de moradia e subsistência. Pude fazer o Mestrado seguindo a mesma lógica, e ainda fui bolsista de um programa federal de fomento, o que ajudava muito nos custos. Hoje no Doutorado consigo arcar com os custos graças ao trabalho que conquistei a partir da escolaridade e do grau de instrução que eu já tinha e que tive apoio e suporte para alcançar. Reconheço aqui que minha trajetória também foi atravessada por privilégios, alguns dos quais continuam presentes em diferentes aspectos da minha vida. E reconheço o quanto isto impacta na saúde mental de qualquer um: as oportunidades, as possibilidades de escolha, as formas de superar uma situação financeira difícil.
E isso sempre me fez pensar sobre como é desigual aquilo que, tantas vezes, chamamos simplesmente de oportunidade. Porque não basta que uma porta esteja aberta quando as condições para chegar até ela são tão diferentes. Reconhecer estes privilégios que atravessaram minha própria existência não diminui minha trajetória. Ao contrário, me ajuda a compreendê-la para além de mim mesma. E é também desse lugar que parto quando questiono os discursos sobre saúde mental que parecem ignorar as condições concretas em que as pessoas vivem.
E o que tudo isso tem a ver com saúde mental? A meu ver, muita coisa.
É a partir dessa compreensão que questiono certos discursos sobre saúde mental. No fim das contas, se nossas possibilidades de construir um futuro são tão desiguais, por que tantas vezes ouvimos discursos sobre sofrimento como se todo mundo tivesse os mesmos recursos para enfrentá-lo?
E essas desigualdades não se expressam apenas nas diferenças de renda ou de acesso à educação. Elas também atravessam as relações de gênero, as relações raciais e as diversas formas de violência que fazem parte da nossa sociedade. Não podemos, por exemplo, falar seriamente sobre saúde mental ignorando as condições de existência de uma mulher submetida à violência doméstica, ou de uma pessoa negra que enfrenta cotidianamente o racismo ou de uma família que vive em condições de extrema vulnerabilidade socioeconômica. Não se pode ignorar que estas condições materiais de existência são atravessadas por determinações que não podem ser reduzidas à maneira como cada indivíduo administra suas emoções.
A experiência profissional que tive, como psicóloga clínica, como ex-servidora pública e como docente, me faz pensar em algumas coisas. Penso, por exemplo, nas mulheres que viveram (e talvez ainda vivem) situações de violência física, psicológica, sexual ou patrimonial. Ouvimos muito por aí que basta denunciar, romper o relacionamento ou procurar ajuda. Mas o que significa tomar uma destas decisões quando existe a dependência financeira, filhos para sustentar ou, simplesmente, o medo? Responsabilizar uma mulher por não conseguir sair de uma situação como essa é desconsiderar justamente as relações de poder e as condições que podem restringir sua autonomia e suas escolhas.
Penso também que quando alguém sofre diante de uma rotina de trabalho exaustiva, por exemplo, não bastaria perguntar porque será que essa pessoa “não consegue lidar com a pressão” ou ainda “por que ela então simplesmente não busca outro trabalho”. É necessário perguntar por que tais condições de trabalho que adoecem são consideradas “normais”, mesmo quando comprometem tempo de descanso, relações familiares e a saúde como um todo.
E podemos falar ainda em outras formas de violência, naturalizadas no nosso cotidiano, como a violência contra crianças e adolescentes, contra pessoas LGBTQIA+, contra pessoas idosas e tantas outras situações em que a dignidade humana é ameaçada. A reflexão aqui é que é necessário reconhecer que a violência, em suas diferentes manifestações, atravessa a vida concreta das pessoas e pode comprometer suas possibilidades de desenvolvimento, sua segurança, suas oportunidades de estudo e (rufem os tambores) sua saúde mental.
Por isso, quando falo em valorização da vida, penso que precisamos ir além da ideia de sobrevivência. Valorizar a vida também significa defender condições para que as pessoas possam descansar, estudar, trabalhar com dignidade, estabelecer vínculos, participar da vida social e construir projetos de futuro. Significa enfrentar as desigualdades sociais e raciais, combater as violências e compreender que saúde, educação, moradia, alimentação, proteção social e acesso à justiça não são questões secundárias quando discutimos sofrimento humano. Elas são a base material de desenvolvimento humano (e das possibilidades de desenvolvimento e superação do que nos adoece).
Talvez o maior desafio seja justamente esse: deixar de tratar a saúde mental como uma responsabilidade que cabe apenas a cada indivíduo e reconhecê-la também como uma questão coletiva, atravessada pelas condições históricas e sociais em que vivemos.
Setembro acabou, mas a(s) vida(s) continua(m) acontecendo. E é sobre essas vidas que precisamos falar quando defendemos a saúde mental.
Porque valorizar a vida não poderia nunca significar apenas um “impedir que ela termine”. Precisa significar, também, construir condições para que a vida possa ser minimamente vivida.
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