Enquanto a resistência antimicrobiana avança como uma das maiores ameaças à saúde pública no mundo, um laboratório brasileiro vem ajudando a definir como o país — e parte do planeta — responde a esse desafio. O Laboratório Central do Estado do Paraná (Lacen-PR) acaba de ganhar reconhecimento internacional por validar o modelo de vigilância hoje adotado em todo o Brasil.
O destaque veio com a publicação de um artigo científico, no dia 15 de janeiro de 2026, na revista suíça Frontiers in Public Health, uma das mais respeitadas da área. Em menos de duas semanas, o estudo já havia sido acessado por pesquisadores das Américas, Europa, África e Ásia, evidenciando o interesse global pela experiência liderada pelo Paraná.
Um modelo que virou referência nacional
O artigo analisa as estratégias brasileiras de diagnóstico e monitoramento da resistência antimicrobiana e aponta o Paraná como peça central na consolidação desse sistema. O Lacen-PR atua como laboratório de referência nacional do BR-GLASS, programa brasileiro integrado ao sistema global de vigilância da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Na prática, isso significa que os dados coletados em todo o território brasileiro sobre bactérias multirresistentes passam pela validação técnica do Paraná antes de serem reportados internacionalmente. Não se trata apenas de realizar exames, mas de transformar informação em inteligência científica.
Segundo o secretário estadual da Saúde, Beto Preto, o reconhecimento reforça a relevância do modelo adotado no Estado. “O Paraná não apenas realiza análises laboratoriais, mas produz conhecimento científico de nível mundial”, afirmou.
A resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias deixam de responder aos medicamentos disponíveis, tornando infecções comuns muito mais difíceis de tratar. No Brasil, estima-se que cerca de 33 mil mortes por ano estejam diretamente associadas a esse problema.
O estudo mostra que a detecção de genes de resistência saltou de 4,2% em 2015 para 23,8% em 2022 — um crescimento acentuado, agravado durante a pandemia da Covid-19.
Diante desse cenário, a forma como os dados são coletados, integrados e analisados faz toda a diferença na velocidade da resposta e na escolha do tratamento adequado.
Tecnologia, integração e tempo de resposta
Um dos diferenciais do modelo brasileiro, destacado no artigo, é a mudança de paradigma da vigilância. O monitoramento deixou de se basear apenas em exames laboratoriais isolados e passou a integrar dados clínicos, epidemiológicos e populacionais.
No Programa VigiRAM, por exemplo — que conta com a participação de cinco hospitais paranaenses — o uso de tecnologias de diagnóstico rápido reduziu em até 39 horas o tempo de identificação de mecanismos de resistência. Isso impacta diretamente o controle de surtos hospitalares e a definição do tratamento mais eficaz para cada paciente.
Para o pesquisador do Lacen-PR, Marcelo Pillonetto, um dos autores do estudo, essa integração é fundamental. “Quando conectamos os dados laboratoriais ao perfil clínico do paciente, a resposta do sistema de saúde se torna muito mais precisa e eficiente”, explica.
Uma rede que vai além do laboratório
A diretora do Lacen-PR, Célia Fagundes Cruz, destaca que o reconhecimento internacional é resultado de investimento contínuo em infraestrutura, tecnologia e capacitação técnica. “Hoje, o Lacen no Paraná é o coração de uma rede que garante dados confiáveis para a saúde pública nacional e alimenta diretamente a base global da OMS”, afirma.
O modelo adotado segue o conceito de Uma Só Saúde (One Health), integrando o monitoramento da saúde humana, animal e ambiental — abordagem cada vez mais necessária diante de ameaças sanitárias globais.
Ciência local, impacto global
Mais do que um reconhecimento acadêmico, a publicação reforça como políticas públicas bem estruturadas, aliadas à ciência, podem gerar impactos que ultrapassam fronteiras. Em um mundo cada vez mais interconectado, experiências locais como a do Paraná ajudam a moldar respostas globais a problemas que afetam toda a humanidade.
A publicação completa está disponível em acesso aberto na revista Frontiers in Public Health.
Portal Boa Notícia — com informações da Agência Estadual de Notícias.
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