Maria Edna de Melo explica como esses medicamentos agem no organismo, seu perfil de segurança e eficácia
Estudo da The New England Journal of Medicine demonstra que, após um ano da interrupção do tratamento com o fármaco semaglutida, os participantes recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso que haviam perdido durante os 68 meses de tratamento ativo. A semaglutida é um sintético que imita o hormônio GLP-1 e tem efeito na redução da fome e auxilia no emagrecimento. Já um relatório da Allianz Research indicou que as vendas dos remédios para emagrecimento cresceram, de 2021 para 2023, 16,7 bilhões de euros. A expectativa de vendas desses medicamentos é que chegue a 92 bilhões de euros até 2030.

Segundo Maria Edna de Melo, endocrinologista do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, esses medicamentos se assemelham aos hormônios que são produzidos após uma refeição. “O mais relevante deles e mais utilizado é o GLP-1, um hormônio que vai no estômago, reduz o esvaziamento gástrico, tem uma ação também no sistema nervoso central, reduzindo a fome, a vontade de comer”, afirma a especialista.
Nos últimos tempos esse tipo de remédio se popularizou, o que explica o aumento nas vendas, conforme mostra o relatório. Segundo Maria Edna, “mesmo sendo medicamentos de alto custo, eles se popularizaram, porque apresentam um perfil de segurança e eficácia melhor do que outros mais antigos. Se a média de perda de peso que se atingia antes era em torno de 10%, hoje a gente já espera uma média de 15% e no mais moderno que a gente tem disponível hoje, que é a Tirzepatida, acima de 20%, ali em torno de 22%”.
A duração do tratamento
O tempo de uso dos medicamentos usados para o emagrecimento, mas também para o tratamento de diabetes tipo II, é variado e depende de cada indivíduo. Maria Edna comenta: “Quando você usa a medicação, ela vai levar ao maior controle da fome, da vontade de comer e, com isso, a pessoa come menos e, consequentemente, perde peso. A partir do momento em que o indivíduo suspenda a medicação, a tendência é de que aquela fome e aquela vontade retornem e a pessoa volte a comer mais e, com isso, recidivar o peso. Isso acontece especialmente naquelas pessoas que têm obesidade, então é muito importante ter essa programação. Porque, se você interromper o tratamento, a maior probabilidade é que você volte a ganhar peso”, afirma a médica.
A duração, a depender do caso, tende a se alongar para continuidade da eficácia do tratamento. A situação financeira do paciente deve ser levada em conta, pois, uma vez que os fármacos são caros e requerem a continuidade, é importante entender se o indivíduo conseguiria manter a frequência. Maria Edna declara: “Assim como a gente trata as outras doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, nas quais os medicamentos controlam a glicemia, a pressão arterial, respectivamente, a gente não retira esses medicamentos, porque senão a glicemia volta a subir, a pressão volta a subir”.
Maria Edna enxerga dois principais aspectos, além do financeiro, que devem ser observados nos tratamentos dessa doença crônica. “O aspecto biológico da obesidade é muito relevante. Isso justifica porque muitos pacientes que vão ao nutricionista começam a seguir aquele plano alimentar e, mesmo sendo um plano adequado para as necessidades do paciente, este paciente, muitas vezes, não consegue sustentar. Porque a fome desse indivíduo é diferente.”
Sobre a parte psicológica, a endocrinologista comenta: “O aspecto psicológico é importante para alguns pacientes, mas o aspecto biológico é muito mais determinante. É muito importante que o paciente que tem obesidade tenha um suporte psicológico, mas as abordagens específicas para perda de peso, geralmente, são abordagens cognitivo-comportamentais e nem sempre o paciente vai ter acesso”.
Fernando Silvestre – Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira – Jornal da USP

