
Um estudo publicado no JAMA Network, em Chicago, nos Estados Unidos, com mais de 17 mil sobreviventes de câncer identificou que começar atividade física após o diagnóstico pode reduzir o risco de morte, inclusive entre pacientes sedentários. A associação apareceu em diferentes tipos de tumor e reforça o exercício físico como aliado relevante na recuperação oncológica.
A pesquisa reuniu dados de pacientes acompanhados em seis grandes estudos de saúde de longo prazo. Os pesquisadores analisaram casos de câncer de bexiga, endométrio, rim, pulmão, boca, ovário e reto, comparando os níveis de atividade física antes e depois do diagnóstico.
O resultado mostrou um padrão consistente: pessoas fisicamente ativas apresentaram menor mortalidade relacionada à doença.
O dado que mais chamou atenção, porém, apareceu entre pacientes sedentários que passaram a praticar exercícios após o câncer. Nesse grupo, os pesquisadores observaram redução significativa no risco de morte, principalmente nos casos de câncer de pulmão e reto.
A descoberta ajuda a desmontar uma percepção comum entre pacientes oncológicos: a ideia de que apenas pessoas já habituadas ao exercício conseguiriam obter benefícios relevantes após a doença. O estudo sugere justamente o contrário. Sair do sedentarismo já pode representar ganho importante para recuperação e qualidade de vida.
Pesquisas anteriores já associaram exercícios físicos à redução de inflamações crônicas, preservação da massa muscular e melhora da capacidade cardiovascular, fatores que podem influenciar recuperação, prognóstico e tolerância ao tratamento oncológico.
Os pesquisadores também observaram benefícios mesmo em pequenas quantidades de movimento, inclusive entre pacientes com limitações físicas causadas pelo tratamento.
O estudo observou associação entre atividade física e menor mortalidade, mas não estabelece relação direta de causa e efeito.
Na prática, os resultados ajudam a reduzir uma das principais barreiras enfrentadas por pacientes com câncer: a percepção de que seria necessário atingir metas elevadas ou esperar o fim do tratamento para começar a se exercitar. A pesquisa indica que mudanças graduais na rotina já podem representar um primeiro passo importante.
Sedentários também tiveram ganho de sobrevida após diagnóstico
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada ou intensa. Ainda assim, a nova pesquisa sugere que qualquer avanço em direção a uma rotina menos sedentária já pode gerar benefícios para pacientes oncológicos.
Outro ponto frequentemente observado durante quimioterapia e radioterapia é a fadiga relacionada ao tratamento. Estudos anteriores indicam que exercícios leves e moderados também podem ajudar no controle desse desgaste físico.
Para a oncologista clínica Ana Paula Garcia Cardoso, do Einstein Hospital Israelita, esse é um dos principais impactos do levantamento.
A pesquisa também reforça uma mudança gradual dentro da oncologia. O exercício físico deixa de aparecer apenas como recomendação ligada ao bem-estar e passa a ganhar espaço dentro das estratégias de cuidado e recuperação funcional.
Especialistas ressaltam que a atividade física não substitui tratamentos médicos contra o câncer, mas pode atuar como aliada na preservação da capacidade funcional e da qualidade de vida durante a recuperação.
Os resultados chamam atenção principalmente porque os benefícios apareceram em tipos de câncer que ainda tinham menos evidências consolidadas sobre o tema, como pulmão, bexiga, endométrio e ovário.
Atividade física após câncer: Caminhada e exercícios leves já apareceram associados a benefício
As atividades analisadas incluíram caminhadas, bicicleta e exercícios aeróbicos moderados. A pesquisa não comparou modalidades específicas, mas mostrou que manter o corpo em movimento já pode gerar impacto positivo.
Isso ajuda a reduzir uma barreira comum entre pacientes que enfrentam fadiga, perda muscular ou dificuldades durante a quimioterapia. Muitas vezes, a ideia de seguir metas difíceis acaba afastando pessoas que poderiam começar com mudanças simples.
Os resultados indicam uma direção diferente: caminhadas regulares, exercícios leves e uma rotina menos sedentária já podem ajudar pacientes com câncer a melhorar recuperação e aumentar a sobrevida.
Especialistas recomendam começar com metas pequenas e realistas, como caminhadas curtas, alongamentos leves ou poucos minutos de movimento por dia. O mais importante é transformar a atividade em um hábito possível de manter na rotina, respeitando as condições clínicas de cada paciente.
A orientação médica continua importante para adaptar intensidade e frequência às condições individuais. Ainda assim, o estudo reforça que adiar o início da atividade física pode significar perder benefícios associados ao movimento regular.
Exercício passa a ganhar espaço dentro do tratamento oncológico
Além dos possíveis efeitos biológicos, a atividade física após câncer também produz impacto funcional e emocional durante o tratamento.
O diagnóstico costuma provocar perda de rotina, redução da autonomia e sensação de fragilidade física. Criar hábitos ativos pode representar justamente o caminho oposto: retomada gradual da independência e recuperação da capacidade funcional.
Manter mobilidade e autonomia durante o tratamento costuma ser um dos principais desafios para pacientes com câncer, principalmente em terapias mais agressivas ou prolongadas.
Na prática, o exercício também pode ajudar pacientes a recuperar parte da rotina e da participação ativa na própria recuperação.
A principal mensagem da pesquisa é que a prática de exercícios não depende de histórico esportivo, alta intensidade ou desempenho físico elevado. O benefício apareceu justamente entre pessoas que decidiram começar depois do diagnóstico.
*Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação de profissionais de saúde. Em caso de dúvidas ou sintomas, procure um médico ou profissional habilitado.
Caroll Medeiros – Boa Notícia Brasil
Leia também:
-
Paraná tem primeiras temperaturas negativas e recorde de frio no ano
-
Carros elétricos no Brasil: produção nacional e preços abaixo de R$ 70 mil
