Clarice Kunsch comenta quais são as estratégias das empresas durante esse período para seduzir o consumidor e quais impactos psicológicos isso gera
A Black Friday, que ocorre na última sexta-feira de novembro, se consolidou como um evento econômico massivo, inaugurando a temporada de compras para o período natalino com significativas promoções em diversas lojas. Esse fenômeno se originou nos Estados Unidos como uma feira de descontos após o Dia de Ação de Graças e é considerado hoje um marco do consumismo em diversos países capitalistas do mundo, que utilizam diversas estratégias de marketing e redução de preços para atrair compradores e assim acabarem com os estoques. Tudo isso influencia e afeta psicologicamente as pessoas, e nos leva à pergunta do que acontece com o consumidor diante da promessa de escassez e da pressão social para “aproveitar” essa data?

A pesquisadora Clarice Kunsch, mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da USP responde esse questionamento. “Hoje existem caminhos extremamente poderosos para despertar esse desejo do consumidor por algo que seja dos interesses dele. Isto é, a força dos algoritmos consegue direcionar os conteúdos já muito especificamente para cada comprador, tanto de produtos que ele já está habituado a consumir como produtos relacionados ao perfil de interesse dele. Com isso, a pessoa vai constantemente se deparar com ofertas que são supostamente imperdíveis, criando uma demanda e um desejo de que ele precisa ter aquilo. Do ponto de vista psicológico, isso desperta ansiedade, impulsividade e uma necessidade de urgência para compensar um desejo que foi ali criado. A ideia é de que é preciso correr contra o tempo, e que existe algum tipo de prejuízo caso eu não corra, caso eu não tome aquela atitude imediatamente. Isso gera um maior imediatismo, respostas mais automáticas e pouco refletidas, como se é necessário ter aquele produto ou se a pessoa tem condições financeiras para ter aquele gasto.”
Estratégias de marketing
Para atingirem seus objetivos de vendas, as empresas se utilizam de inúmeras estratégias de marketing distintas para seduzirem os compradores. Clarice acredita que o principal impulsionador da pressão atualmente é a comunicação sobre o uso e da importância de cada produto ser feita em maior intensidade de pessoa para pessoa (influenciadores) nas redes sociais. “Certamente isso gera uma sensação de maior identificação no cenário do consumo, porque leva a acreditar que consumir determinado produto me deixará como aquela pessoa que admiro, que sigo, e com isso o produto tem uma validação social. Além disso, as empresas criam estratégias sedutoras de promoções com prazo, o que leva o consumidor a tomar a decisão no tempo da promoção e não no tempo dele, gerando comportamentos impulsivos. Outra estratégia utilizada é a sinalização de quantos usuários estão de olho naquele mesmo produto simultaneamente, dando a entender que caso não tome nenhuma atitude ficará sem. Isso mostra que é algo validado por outros, quase dando uma autorização ao seu desejo, já que outros também querem.”
Esse fenômeno de “correr contra o tempo”, ocasionado pela Black Friday, é o Fear of Missing Out, ou seja, o medo de perder um produto altamente divulgado, que pode gerar nas pessoas uma sensação de vazio e não pertencimento. “No consumo, eu preciso ter aquele produto para aliviar a sensação de que não estou por fora. Seria uma forma bem pontual de tentar aliviar a ansiedade, mas que certamente pode ter um efeito rebote lá na frente, quando os produtos chegarem e eu entender que não precisava realmente daquilo ou na hora de pagar a conta e me complicar financeiramente.”
Consequências do consumismo
Por fim, Clarice comenta as principais consequências que esse consumismo desenfreado pode desencadear, mencionando que pode impactar as esferas individual, social e econômica de uma pessoa. “No indivíduo é notável o aumento constante da ansiedade, dos comportamentos impulsivos, das comparações com o outros e uma constante insatisfação consigo mesmo. Do ponto de vista social, passamos a querer sempre ter mais ao invés de valorizar o ser e a nossa essência. O incentivo ao consumo cria picos de alta demanda para produtos muito específicos que logo passam a ser criticados ou descartados, como exemplo os labubus, que viraram febre em pouquíssimo tempo e hoje já são considerados brega. Isso claramente prejudica o meio ambiente, aumentando o descarte de lixo.”
Já do ponto de vista econômico, muitas empresas investem em produtos que estão em alta entre os consumidores, mas depois que as altas acabam os resultados não se sustentam e projetos acabam sendo abandonados. O consumidor pode também se sentir enganado e causar um barulho significativo no mercado, tanto nas redes sociais como em plataformas de reclamações, além do próprio endividamento que pode ocorrer pelo consumo excessivo.
Andrey Furmankiewicz – Sob Supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira – Jornal da USP

